outubro 28, 2003

Smile 31

Quem nunca participou numa clássica “corrida para a fila”?
A situação é algo embaraçosa, mas ninguém se restringe de participar nela.
Vamos a algum sítio, e a cerca de cinquenta metros reparamos que se forma uma fila para tal sítio.
Utilizando um exemplo concreto, é mais fácil de explicar. Há dias fui ao cinema, para ver um filme que possivelmente esgotaria a sala. Lá chego eu ao centro comercial, que hoje se designa por forum, e começo a dirigir-me para o piso da bilheteira. Ainda nas escadas rolantes começo a aperceber-me que alguns jovens iam a falar do mesmo filme que eu ia ver.
Aí começa a contenda. Começo, subtilmente, a subir um degrauzito das escadas rolantes, paralelas às que os meus inimigos ocupavam. E depois outro. Um dos adversários repara, o que vai mais atrás. E como quem não quer a coisa, dá um empurrãozinho ao seu parceiro. Este reclama e pergunta-lhe o que se passa. O empurrador faz o velho sinal com a cabeça, aquele que quer dizer “olha aí ao lado.”. E agora vem a acção. Eu reparei no sinal. E começo a galgar as escadas como se não fossem rolantes. Eis que os quatro amigos se apercebem e vêem o meu olhar focado na fila, concentrado, como se não existisse mais nada à minha volta a não ser aquela fila. E eles arrancam. Sem olhar para trás, dou um encontrão numa velhinha que se agarrava desesperadamente ao corrimão, deixando-a cair desamparada para trás, aos rebolões. A bengala girava no ar, descontrolada. Ainda acertou no lábio de uma criança que ia ao colo da mãe, nas mesmas escadas que os meus oponentes. Com alguns salpicos de sangue na face, o primeiro deles resolve não disfarçar mais e furiosamente afasta as pessoas que seguiam à sua frente. O que seguia logo atrás pisa sem querer a cabeça de uma rapariga que caiu e tropeça, batendo com a cara no degrau, o que o deixou fora da competição. Já desesperado com o avanço que eu ia ganhando, um deles atira-me com um carrinho de bebé. Consigo esquivar-me do objecto, mas o cabrão do puto agarra-se-me ao casaco. Felizmente, à medida que o vou esmagando contra a divisória das escadas, ele vai perdendo as forças e larga-me, o que me aliviou o peso e permitiu voltar à minha velocidade. No entanto, ao puxar para trás uma senhora grávida que ocupava toda a largura das escadas, fui precipitado e deixei que ela me atingisse na queda. Agarro-me aos cabelos de uma jovem, recupero o equilíbrio, e consigo finalmente sair dali. Ao ficar presa no mecanismo, a jovem a quem me agarrei fez com que a velocidade das escadas rolantes diminuísse bruscamente e eu caí. Do chão, conseguia ver os três resistentes dirigirem-se para a bilheteira. Mas descuidados, resolveram olhar para trás para me lançar um sorriso de vitória. Foi um erro. O chão à sua frente estava molhado e numa escorregadela aparatosa, os três estatelaram-se no mosaico, permitindo-me alcançá-los. Desato então a correr, ignorando os gritos de um deles, que mesmo com a perna dobrada por debaixo das costas, incitava os outros: “Rápido, rápido!”. Com a última pessoa da fila já a fazer-me sinais de motivação, chamando-me, olho ainda para ver o meu avanço, e quase deixo que um jovem de fato de treino e boné me desse um encontrão. Com o braço direito protejo-me do choque e acabo por lançá-lo contra a vitrine de uma loja de roupa. Foi a minha sorte, porque no momento em que um dos dois competidores se preparava, sem qualquer respeito, para me puxar, o sangue que jorrava da carótida do jovem da vitrine foi-lhe para os olhos, obrigando-o a levar as mãos à cara. Chego à fila, e após respirar fundo para recuperar o fôlego, olho para os dois com um ar aliviado, mas de quem venceu, dando-lhes a entender que se portaram dignamente, à altura. Enquanto a fila avança, comentamos e rimos com a nossa pequena disputa, amigavelmente. Chega a minha vez de comprar o bilhete. Peço três, pois achei que era a forma de recompensar os dois companheiros. Eles dão-me uma palmada nas costas e agradecem o meu gesto, sinal de respeito por eles e que mais importante que saber perder, eu sabia ganhar, sem humilhar os adversários.
A resposta da rapariga não se fez esperar, através do seu intercomunicador:

ESSE FILME NÂO ESTÁ EM EXIBIÇÃO NESTE CINEMA!

Isto nunca vos aconteceu?

Publicado por Pikes em outubro 28, 2003 02:11 PM
Comentários

confesso que gostei deste, mesmo sendo o que mereceu menos comentários ...
é que é "quase" o que se passa na realidade ...
Abraço

GIN

Afixado por: GIN em novembro 8, 2003 09:32 AM

«NÂO»?

7,5 [de 1 a 10]

Afixado por: Senhor Doutor em outubro 28, 2003 06:54 PM